1. Fale-nos um pouco de você.

Pergunta de tema aberto é sempre mais difícil… bem, eu sou a Ana. Eu tenho vinte e seis anos e escrevo histórias desde sempre – meus tios e avós tem “livrinhos” escritos e ilustrados por mim aos seis anos, para provar – mas na adolescência percebi que queria fazer isso como profissão. Eu moro em Osasco-SP com meus pais, meu irmão e minha avó, nós temos um gato e eu gosto de sopa. Acho que é isso.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Eu me formei em Física pela Universidade de São Paulo e durante a graduação trabalhei meio período como professora de reforço escolar para crianças estrangeiras. Agora estou fazendo pós-graduação em Física Nuclear e dou aulas de inglês. Quanto a inspiração, eu brinco que “criatividade é 10% arrogância e 90% plágio”: quando eu vejo uma história legal eu imagino como seria eu dentro dela, tento dar finais diferentes, ou acabo dizendo “a ideia é boa, mas acho que eu podia fazer melhor” – e tento escrever sobre o mesmo conceito mas colocando elementos que considero meus. No fim todas as referências se misturam e acaba surgindo algo razoavelmente novo.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Acho que tem duas coisas no processo de escrita que eu adoro: o fato de que alguma coisa não existia, e agora existe – eu fico apaixonada pelas minhas personagens, tanto que ainda não dominei a arte de sair matando pessoas nas minhas histórias, apaixonada pelos lugares que elas visitam, até apaixonada pela voz narrativa contando a história. E a outra coisa é que quando eu escrevo eu coloco muito de mim na página – e às vezes fico surpresa com o que coloquei. Então para mim a escrita é um ato de autoconhecimento, uma espécie de laboratório mental e quase uma terapia.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? (Envie-nos uma foto)

Quisera. Quando eu posso escrevo no meu computador, na minha mesa, mas na maioria das vezes só tenho tempo para escrever dentro do transporte público. As pessoas do meu lado no trem devem achar que estou mandando a mensagem de texto mais longa do mundo, haha.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

“Se não tem dragões, não tem graça” é meu lema como autora de fantasia, mas as duas antologias que estou participando pela Arca Literária saíram um pouco desse gênero, e achei um ótimo exercício.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Confesso que não tenho o costume de fazer uma pesquisa “estruturada” para construir os cenários das minhas histórias, e essa é inclusive uma das razões pela qual prefiro escrever universos fantásticos: eu não preciso pesquisar “nomes e profissões comuns da Coreia do século XV” porque minha história não se passa na “Coreia do século XV”, e sim em um “mundo inventado que lembra visualmente a Coreia do século XV” mas onde eu decido o que é ou não comum. Mas claro que para conseguir essa sensação de “lembrar” um lugar ou período eu procuro algumas coisas no Google, principalmente imagens.

7. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

De certa forma, em tudo. Tanto quando pego a ideia de alguém e tento dar a ela uma roupagem que seja mais “minha” quanto quando penso no que outros já fizeram para tentar fazer algo diferente de propósito. Claro, tem alguns que são mais inspirações do que outros: eu sonho que um dia minhas histórias causem tanto impacto nos leitores quanto as de Jorge Luiz Borges, em ter tramas como as do Neil Gaiman ou da Diana Wyne Jones, brincar com as palavras como Guimarães Rosa, etc. Mas por enquanto são só sonhos.

8. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

O primeiro livro que escrevi foi encontrado por uma editora, mas foi uma verdadeira história de terror: enquanto é perfeitamente normal pedir que o autor participe com uma quantia para a publicação, a editora que me contatou não oferecia revisão, diagramação nem capa. Eu não tinha dinheiro para pagar por esses serviços e nem pela impressão, então foram impressas apenas as cópias de cortesia do autor. Hoje em dia eu poderia economizar para pagar pela impressão de mais cópias, mas eu não tenho vontade de causar a existência de mais exemplares daquela coisa sem edição, sem revisão, sem cuidado. Percebi que se eu teria que pagar por cada etapa separadamente, então era mais fácil publicar sem editora. Esse livro fatídico ainda pode ser encontrado em alguns catálogos online, mas hoje estou lutando para divulgar meu nome de forma mais independente ou encontrar projetos sérios como esse aqui, onde o autor recebe feedback e apoio dos editores.

9. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Eu estou agradavelmente surpresa com o que estou vendo: tem muito mais gente escrevendo coisas novas e legais do que eu imaginava. Inclusive, fico chateada que a mídia não esteja mostrando nem a ponta do iceberg do que está acontecendo na literatura brasileira. Nossa mentalidade ainda é muito “colônia”: promovemos tudo que é feito nos EUA e Europa, e negligenciamos as coisas incríveis produzidas em casa.

10. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Acho que é melhor ter gente lendo e escrevendo, independente da qualidade final da obra. Ninguém é um best-seller no primeiro rascunho. Obviamente que com tantos livros fica impossível acompanhar tudo, e às vezes não sabemos nem por onde começar, mas quando começamos a ler também não foi assim? Uma exploração, um processo de descobertas?

11. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

A mesma sobre os preços elevados dos livros internacionais. Quando um livro é caro as pessoas não se sentem confortáveis de “apostar” nele: só vão gastar dinheiro com o livro se elas tiverem certeza que o livro é bom, e esse tipo de certeza só cabe aos grandes best-sellers. Por um livro novo e pouco conhecido as pessoas simplesmente não vão pagar, então ou elas vão piratear, ou simplesmente não vão ler. Isso atrapalha muito o crescimento de novos autores. Por outro lado, o quanto é viável baratear o livro do novo autor? As contas tem que ser pagas de algum jeito.

12. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

É uma pergunta difícil porque me sinto assim sempre que termino de ler um livro muito bom, mas acho que fico com as “Ficciones” de Jorge Luiz Borges. Se eu pudesse ter escrito “A ruína circular” (um dos contos desse livro) acho que eu não precisava escrever mais nada na vida. “Coraline”, do Neil Gaiman, também é um bom candidato.

13. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da música + cantor)

Vou passar essa pergunta. Na hora que escrevo não tenho uma “identidade auditiva” para as personagens e o cenário, e na hora que leio só ouço música “normal”, que eu gosto, sem relação com o livro

14. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Sim e não. Consigo pensar em livros que me identifiquei mais com as protagonistas e nos livros que mais me ensinaram lições, mas nunca apliquei a etiqueta “livro da minha vida” a nenhum deles. Vou mencionar aqui o livro “Flora Segunda”, que me marcou bastante: depois que a gente fica adolescente e chato a gente para de dizer pros nossos pais coisas como “eu amo vocês”. Esse livro ajudou minha eu de 15 anos a voltar a dizer isso, então acho que foi importante.

15. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Sempre. De fato, pode-se dizer que o principal obstáculo para concluir meus projetos atuais são meus projetos futuros, haha. Mas meu objetivo imediato é pegar uma série de textos do meu blog, agrupados sob o nome de “Inacabados” e, bem, acabá-los.

16. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Eu me mantenho atenta aos livros que estão sendo mais comentados no Twitter, mas acabo não olhando muito em detalhes: não vejo sentido em ler uma resenha detalhada de um livro que não li (gosto de tirar minhas próprias conclusões) e geralmente espero o burburinho da mídia baixar antes de ir atrás de uma obra específica. Ainda não tem nada meu sendo comentado na mídia, então não sei como minha atitude vai mudar quando isso acontecer.

17. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Tenho muito medo do feedback que receberia, mas gostaria que autores como o Neil Gailman e o André Vianco pudessem ler meus textos.

18. Qual a maior alegria para um escritor?

De novo, duas coisas: quando alguém começa a se importar com as minhas personagens e o mundo que eu criei para elas; e quando o que eu escrevi ressoa com a pessoa em um nível mais profundo e ajuda a pessoa em questões de autoconhecimento e encontrar coragem para enfrentar os dragões da vida real.

19. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Leiam muito. Comam todas as verduras e bebam bastante água. Leiam muito. Usem filtro solar. Leiam um pouco mais. Estudem as grandes obras, sejam elas os clássicos ou os best-sellers. Estudem técnicas de estrutura narrativa, diálogo, construção de personagem. Leiam mais. Escrevam do seu jeito. Melhorem seu primeiro rascunho. Não desistam! (E leiam.)

https://cronicasdoblocodenotas.wordpress.com

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