Até Eu te Possuir – Soraya Abuchaim

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Ela tinha seus livros como companheiros,

mas algumas vezes precisava de contato humano, é natural”.

(Soraya Abuchaim,

in: Até Eu te Possuir, 2016)

 Quando conhecemos alguém que é extremamente solitário e retraído, é impossível não passar pela mente: como alguém termina em uma situação dessas, sem ninguém com quem contar? E é exatamente a essa indagação que a autora Soraya Abuchaim responde no suspense “Até Eu te Possuir” ao esmiuçar a história de Johanna Dorne.

Os capítulos são intercalados entre três momentos da vida da protagonista. Uma Johanna vivaz, popular e ansiosa por sua festa de 13 anos contrasta com a resiliente jovem mulher tentando se reinventar e a solitária bibliotecária de meia idade, conformada que se tornou.

Personalidades tão dispares em um mesmo personagem só aumentaram a expectativa em relação aos “marcos” que ocorreram em cada uma dessas épocas que moldaram e macularam a inserção ao mundo adulto de Johanna. É nas reflexões da protagonista que a autora desenvolve cada capítulo para culminar nessa plausível e assustadora evolução.

Os trechos que relatam o início da adolescência de Johanna são os únicos narrados em terceira pessoa, dando a impressão que até mesmo a protagonista necessita de um distanciamento do que acredita ser o começo de sua maldição. Tragédias seguem incessantemente e persegue os passos da garota, ceifando todas as pessoas de sua vida.

Até mesmo o leitor divide as dúvidas levantadas pela protagonista e dá crédito ao seu isolamento auto imposto. Afinal, esquivar-se do sofrimento é parte inerente da psique do ser humano, seja esse sofrimento causado pela perda ou pela culpa… E Johanna carrega, direta ou indiretamente, todos esses fardos.

Entre seus livros, vinhos e conversas imaginárias com seu antigo terapeuta – que rende os melhores insights e algumas ótimas risadas – Johanna, contra seus instintos, permite que um fio de esperança brote em sua mente mais uma vez ao conhecer Michel Brum. O enigmático sedutor tem tudo para ser o príncipe encantado que resgatará a bibliotecária solitária, mas estamos falando de um livro de Soraya Abuchaim e, o que deveriam ser flores e redenção, se torna um pesadelo.

Além do suspense que permeia da primeira a última página, o livro levanta questões sobre a importância do empoderamento feminino, tema tão em voga atualmente, e como o abuso, seja de qualquer forma que se apresente, dizima até o futuro mais promissor.

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2 Comentários

  1. Que resenha massa!!
    Seguinte, estou finalizando a leitura de Vila dos Pecados, e minha experiência com o livro me deixou bem claro que ela é uma baita escritora, não é querendo ser bajulador. Ela tem uma linguagem muita boa, conhece das técnicas e as usa sem perder a essência do intuitivo e sentido. Então, tenho certeza de que este livro “Até eu te possuir” é ótimo também. E está na minha lista de leitura de férias.

    • Obrigada, Fernando!
      Eu sou fã das obras da Soraya, incluindo a incrível Vila dos Pecados. Aproveite bastante a leitura e corre para ler “Até Eu te Possuir”, pois a temática irá te agradar e surpreender.

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