Observar e absorver, Já dizia Eduardo Marinho, artista plástico, escritor, ativista social e filósofo das ruas.

Observar a realidade de modo a absorvê-la, ou seja, apreender, já é meio caminho para compreendê-la em sua totalidade histórica. Compreender a realidade, por sua vez, nos move. O movimento (inconformista) pede mudança. A falta de movimento (devido ao conformismo) preserva o que está dado. O que está dado é a conservação do velho, das instituições falidas, desacreditadas. E, no momento, o novo quer passar. O novo quer nascer. E o conservador (esse hipócrita) quer abortá-lo.

Quando criança lembro de meu pai brincando com essas palavras enquanto me ensinava a ler e a escrever. E mais tarde, quando iniciei meus estudos da língua inglesa, francesa e espanhola, tratei de descobrir de imediato as respectivas traduções. Dada a raiz latina, todas são muito parecidas – observe e absorb, em inglês; observer e absorber, em francês; e observar e absorber, em espanhol. Em alemão é ainda mais curioso. Existe a palavra aufnehmen que, segundo Christophe Deike, amante da literatura, advogado e membro do FDP (Partido Democrático Liberal alemão), quer dizer: “assistir algo atentamente mas também deixá-lo invadir o seu eu mais íntimo até que se possa entender o que se vê”, ou seja, observar e absorver.

Estudar outros idiomas sempre me ajudou a ver a vida de uma maneira diferente. Levando em consideração a cultura e o processo de desenvolvimento de cada sociedade, eu fazia uma comparação entre o meu mundo e o do outro através das palavras. O estudo e a prática do idioma me trouxe bastante criticismo, quer analisado-o enquanto língua materna ou enquanto língua introduzida através de processos violentos ou (raramente) pacíficos de dominação.

Portanto, estudar o francês falado na frança era entender um pouco do Movimento Iluminista do século XVIII que trouxe luz após os séculos de obscurantismo e entender um pouco da efervescência de maio de 1968 quando a juventude conseguiu se fazer ouvir. Estudar o francês crioulo, contudo, era descobrir a miséria dos países africanos colonizados pela França, como Senegal e o Níger, onde o discurso da juventude francesa de 68 não chegava e onde  métodos de tortura e exploração característicos da Idade Média passaram batidos pela sociedade francesa pós-iluminismo. Estudar o francês era, indiretamente, estudar as contradições do mundo.

Desvelar as contradições desse mundo eurocêntrico, me ajudou, também, a perceber as discrepâncias do Brasil, país dito livre, mas que escraviza seu próprio povo.  Principalmente o povo nordestino que, sem sua força de trabalho, o status de país em desenvolvimento certamente não seria possível.

Perceber os contrastes sociais externos e internos, em todos os seus aspectos, me fez enxergar o contrassenso da cidade de Fortaleza: a cidade que romantiza o amor (estupro) de uma Índia por um português é a mesma que mata a juventude mestiça e a mantém refém na periferia, vigiada 24h por torres de controle e helicópteros que sobrevoam muito baixo suas casas, aterrorizando-a dia e noite.

Observar o povo trabalhador e absorver a sua realidade é entender a sua fraqueza diante da “maldade tipicamente brasileira” das classes privilegiadas. Na hora do almoço, em um restaurante no centro da cidade, um agricultor conversa com seu compadre. Ele diz que seu patrão (dono da terra) pediu para que retornasse ao trabalho assim que acabasse seu casamento. “Muiê, o que a gente tiver de fazer, vai ficar para depois da roça”, disse ele para a sua esposa, no minuto seguinte em que assinaram os documentos no cartório. No caminho de volta para casa, em pé dentro de um ônibus lotado, a  empregada doméstica, irritada, desabafa com uma desconhecida: “aquela imunda passa o dia deitada, enquanto eu fico colocando e tirando roupa dentro da máquina de lavar e depois estendendo no varal. Como se não bastasse as roupas dela e das porcas das filhas, ela ainda por cima traz roupa da vizinha e do filhos da irmã, uns cabra véi. Eu passo o dia nessa peleja, mulher. Só consigo arrumar a casa no final da tarde, depois de ainda lavar cueca e calcinha à mão, chei de freada”.

Esse trabalhador e essa trabalhadora, sem condições objetivas (tempo), nem subjetivas (motivação) para observar e absorver sua realidade, não conseguem se identificar como protagonistas de suas próprias histórias, nem como agentes de transformação da sociedade. Eles não sabem que sem o trabalhador, não existe produção. Sem produção, não existe lucro. Sem lucro, o patrão se definha. E sem saber disso, eles se conformam e aceitam conservar as coisas como estão: “o pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico”.

Por: Vinícius Ribeirinho

Imagem de: Layla Fontenele @magafoita

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here