Evolução do pensamento: Da caridade de Jesus Cristo, à igualdade do iluminismo até chegar ao terraplanismo .

Quem diria que, centenas de anos depois do Movimento Iluminista, onde o mundo abria sua mente para o pensamento científico e para as artes, teríamos no Brasil uma onda de pensamentos medievais, pessoas questionando se a terra é esférica ou em forma de… uma pizza.

Mas o que foi mesmo esse movimento iluminista? Você vai entender porque precisa saber sobre ele para não concordar com o Roger, que acredita que com mais agrotóxicos alcançaremos a paz mundial e todos seremos ricos (o.O).

Resumidamente, o Movimento Iluminista iniciou-se no continente europeu entre os séculos XVII e XVIII, e reverberou pelo mundo todo nos séculos seguintes. O pensamento iluminista deu luz aos princípios do conhecimento crítico à todas as áreas da humanidade, contribuindo para o seu progresso, trabalhando para a superação do poder tirano e da superstição da Idade Média, mais conhecida como Idade das Trevas. As teorias iluministas eram, principalmente, centradas na R A Z Ã O. Os iluministas defendiam a igualdade, o progresso, o respeito, a tolerância, um governo constitucional e a separação da Igreja-Estado.

Ao contrário do que dizem os terraplanistas e os que duvidam da missão Apolo 11 – e aqui os coloco no mesmo bolo porque não passam de pensamentos simplistas os quais explicarei mais à frente –, os filósofos contemporâneos de Rousseau e Kant não lutavam pelo fim da igreja e sim pelo fim da soberania que lhe conferia, arbitrariamente, plenos poderes de decidir quem deveria viver ou morrer. Mulheres que contestavam o fato de não poderem estudar e de serem consideradas apenas um útero, por exemplo, eram chamadas de bruxas e queimadas vivas, em praça pública. Fico imaginando como seria hoje em dia, as pessoas assistindo à esse espetáculo dos horrores em programas policiais, como assistimos todos os dias em casa, na hora do almoço, aos corpos dos jovens que, negligenciados, ou seja, tendo todo tipo de direito negado pelo Estado, têm suas vidas ceifadas (pelo próprio Estado).

Essa luta contra o poder da Igreja Católica da era medieval, não é muito diferente da luta travada todos os dias pela atual oposição à bancada fundamentalista. Fazer frente à um governo pautado na distorção dos preceitos de Deus e no pensamento simplista anticientificismo é uma constante. Assim como os pensadores iluministas tentavam recorrer à razão, estamos, mais de 300 anos depois, brigando por coisas que, à essa altura, já deveriam parecer óbvias.

Por exemplo, o que é mais contraditório do que um cristão (sujeito que segue os princípios de Cristo) a favor da tortura (Jesus Cristo não foi torturado até a morte?), a favor do armamento (Jesus Cristo não lutava pela paz?), com discurso de ódio contra minorias (Jesus Cristo não pregava o amor, a igualdade e o fim da tirania contra os oprimidos?) e contra políticas públicas voltadas para a população mais pobre – o que aconteceu com o “dai de comer a quem tem fome e dai de beber a quem tem sede”?

Há uma clara usurpação do prestigio da figura de Jesus Cristo para impor uma doutrina completamente contrária ao que está expresso no novo testamento que destaca a passagem de Jesus pregando a caridade, assistência social, especialmente aos mais vulneráveis.

Ele iniciou um movimento de massa contra a dominação e o poder absoluto de uma classe. Não estou falando de Karl Marx, estou falando dele mesmo: Jesus Cristo. Ele era essencialmente socialista. Jesus era um revolucionário que lutou contra os poderosos e desafiou o Estado e, por esse motivo, foi humilhado e executado. Assim como, no Brasil bolsonarista, todos os que buscam a paz, a justiça e a igualdade são humilhados e executados. Marielle, presente!

Jesus Cristo já voltou. Ele volta todos os dias. Ele está encarnado nas figuras que buscam por mudança, justiça social e pelo fim da exploração. Contudo, ele continua perecendo à mando dos poderosos e pelas mãos da população não-crítica.

Para um terraplanista, é mais fácil acreditar numa teoria que diz que a terra é chata e que estamos rodeados por muralhas de gelo, com uma lâmpada dando voltas do que estudar as leis da Física que regem nosso universo. Para os que duvidam da ida do homem à lua, é mais cômodo acreditar na teoria de que tudo não passou de uma encenação hollywoodiana do que buscar compreender o que foi a corrida armamentista e espacial entre União Soviética e EUA em busca pela hegemonia mundial, nos anos da Guerra-Fria.

Portanto, o pensamento simplista é mais fácil de adotar do que esforçar-se para se chegar a um pensamento crítico. Isso demanda tempo e energia (dinheiro também, vai) para muito estudo e reflexão.

Por isso, para um bolsonarista, é difícil entender que mais agrotóxicos (veneno) é mais dinheiro para os empresários do agronegócio e mais câncer para as camadas mais pobres e médias cujo salário não lhes dá acesso aos produtos orgânicos dos supermercados “conceito” das áreas nobres das grandes cidades; é difícil entender que o desejo de transferir a demarcação de terras indígenas da Funai (Fundação Nacional do Índio) para o Ministério da Agricultura, vai de encontro aos interesses de uma bancada (ruralista) responsável pelo extermínio dos povos indígenas. Para chegar a essas conclusões, ele teria que observar a dinâmica social brasileira e conhecer a história da exploração na origem do nosso país. E do mesmo modo, para um bolsonarista, é difícil entender que as palestras de Deltan Dallagnol e seu tão sonhado “Instituto da Lava Jato” são, na verdade, formas mais “elaboradas” para se lavar dinheiro oriundo de corrupção.

O que abundou em nossos precursores iluministas, faltou aos nossos contemporâneos bolsonaristas: razão, sanidade e lógica. Sinto que um dia a humanidade, em especial o povo brasileiro, ainda vai se envergonhar muito do momento que estamos vivendo. Ao mesmo tempo, boto muita fé nessa geração inconformada de Greta Thunberg, ativista do clima sueca de apenas 15 anos. Espero que muito em breve, a juventude brasileira – no momento apática e indiferente – reaja de maneira mais aguerrida.

Por: Vinícius Ribeirinho

Imagem por: @seahorse.jpg

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