Josué de Castro, ainda na década de 1940, escreveu sobre a fome no Brasil. Na obra “Geografia da Fome”, Castro descreve que a fome se encontra manifestada nas distintas regiões do país. Mesmo assim, de acordo com o autor, não é possível afirmar que a fome se manifeste de maneira igualitária. Ao contrário, em “Geografia da Fome”, o autor ilustra as mais diversas formas em que a fome se externa, eis que varia, de maneira drástica, de acordo com cada cenário regional.

Assim, a fome é fruto das escolhas de desenvolvimento às quais está subordinada a sociedade brasileira, tendo como causa as escolhas políticas, é o resultado das macrodecisões sociais e econômicas que compreendem o destino alimentar milhões de brasileiros. Muitas das escolhas sociopolíticas são traduzidas em políticas públicas, fomentando o aumento das desigualdades sociais e, por vezes, da pobreza e da desnutrição. Josué de Castro (1984) apresenta o atual conceito de fome, não apenas visto como fenômeno puramente médico ou biológico, mas também histórico-social e político. A concepção de fome, ainda na visão de Castro, passa a ser também um caráter crítico, como resultado direto do processo de desenvolvimento do sistema capitalista. É o retrato da desigualdade social eternizada

Dessa forma, a fome emoldura um dos retratos mais cruéis da intolerância, sobretudo aquela que perdura nos tempos de abundância e decorre do desperdício, da ganância que grassa nos nichos de riqueza, aquela que mata lentamente, que age em surdina resultante da subalimentação. É uma fome matreira que engana os famintos, os quais pensam que estão se alimentando porque comem, ou melhor, enchem os estômagos, conduzindo, inadvertidamente, a uma morte lenta, perversa, silenciosa, incapaz de incomodar, porquanto passa despercebida, mascarada por outra questão.

A fome é traduzida de logo pela magreza aterradora, exibindo todos fáceis chupados, secos, mirrados, com os olhos embutidos dentro de órbitas fundas, as bochechas sumidas e as ossaturas desenhadas em alto-relevo por baixo da pele adelgaçada e enegrecida (CASTRO, 1984). Ao discorrer sobre os tipos raquíticos do sertão nordestino, Josué de Castro (1984) afirma que tal nomenclatura é equivocada, porquanto tais figuras “são tipos enfezados, subnutridos, carenciados de outros muitos elementos nutritivos, e que não se puderam desenvolver normalmente, acossados pelo bombardeio das fomes muito seguidas, naquelas fases em que as secas se amiúdam além de certos limites” (1984, p. 201-202).

Os “filhos da seca”, na perspectiva de Castro, que aparecem com um signo da fatalidade em inúmeras famílias sertanejas, são esfomeados e carenciados de toda espécie de nutrientes. “Muitas destas crianças ficam marcadas a vida toda com suas estaturas mirradas pelo nanismo alimentar, com suas deformações das osteopatias da fome de suas endocrinopatias carenciais, manchando e afeando o conjunto de homens que constitui a raça sertaneja” (CASTRO, 1984, p. 220).

O fenômeno não é mais do que a mais trágica expressão do desenvolvimento dos países mais ricos que se sustentam na exploração de países mais pobres, provocando-lhes não apenas a fome quantitativa, aguda ou manifesta, mas também a fome qualitativa ou oculta. A fome aguda seria aquela menos comum e mais de ser verificada. Faz referência à verdadeira inanição, limitado a áreas de extrema miséria e a contingencias excepcionais. Já a outra espécie de fome, denominada de fome crônica, também nomeada de parcial, qualitativa ou latente, materializa um fenômeno mais frequente e mais grave.

A falta contínua de determinados elementos nutritivos, nos regimes alimentares habituais dos povos subdesenvolvidos, e até de uma pequena parcela dos desenvolvidos, provoca a morte lenta de vários grupos humanos no planeta, apesar de comerem todos os dias. Castro já explicitou que “é essa fome de grande parte de nossa população que uma pequena maioria dominante não quer ver. A pequena maioria que come bem, até demais, e para quem o uso das imagens alimentares da gíria nacional não tem provavelmente sabor nem sentido” (CASTRO, 1984, p. 308).

Ainda assim, por mais que pareça distante a percepção apresentada por Castro, não é possível esquecer como reverberou a questão das últimas declarações prestadas pelo Chefe do Executivo Federal, Sr. Jair Messias Bolsonaro, à mídia estrangeira. De acordo com ele, “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira” (SALOMÃO; MAZUI, 2019, online). É certo que, em razão dos massivos investimentos durante a década passada e meados desta, o Brasil conseguiu sair do denominado Mapa da Fome da ONU, o que implica dizer que, naquele período, um número inferior a 5% (cinco por cento) da população total passava fome (estavam expostos ao conceito de insegurança alimentar).

Em termos comparativos, o país avançou de maneira determinante no combate à fome, de modo que, de fato, não são vistas pessoas com aparência esquelética e portadoras de carestia transitando pelas ruas. Contudo, o número de pessoas em situação de insegurança militar ainda ultrapassa a cada dos milhões e, por si só, deveria causar elevada preocupação para os governantes. Ainda assim, não é possível apregoar um discurso que, de maneira clara, banaliza a temática de forma rasteira, em especial devido a um reducionismo que beira à ignorância acerca do tema.

As decisões estabelecidas dentro da agenda política acenam para uma alteração do enfrentamento enquanto política de Estado. Passa-se, por via de consequência, a temática a tremular como política de governo e, portanto, sujeita ao subjetivismo do Chefe do Executivo Federal, o que coloca em risco os avanços obtidos até aqui e expõe a parcela da população mais vulnerável a conviver com o assombroso fantasma da fome e os riscos que provocam.

Por: Tauã Lima Verdan Rangel

REFERÊNCIAS:

CASTRO, Josué. Geografia da Fome. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.

POMPEU SOBRINHO, Thomaz. A história das secas século XX. Mossoró: Fundação Guimarães Duque, 1982.

SALOMÃO, Lucas; MAZUI, Guilherme. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, diz Bolsonaro. In: G1: portal eletrônico de informações, 19 jul. 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com>. Acesso em 25 jul. 2019.

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