Gilson Luis Da Cunha

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  1. Fale-nos um pouco de você.
    Moro em Porto Alegre, cidade em que nasci, com minha esposa, minha filha, uma cachorrinha dacshund, sete carpas e um número indefinido de bonsais.
  2. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
    Sou biólogo, doutor em genética e biologia molecular. Mas nem sempre a inspiração vem de minha experiência na área. Essencialmente, gosto de traduzir emoções na escrita. Gosto de imaginar personagens com emoções reais, nas mais inusitadas situações, embora eu tenha uma queda pelo humor, um gênero que considero subestimado. Costumo me inspirar com quase qualquer coisa: clássicos da literatura, histórias em quadrinhos, filmes, notícias de jornais ou internet, etc. É algo meio aleatório. Por exemplo: meu romance de estreia, Onde Kombi Alguma Jamais Esteve, surgiu de uma piada absurda. Pensei “e se eu pudesse pegar um incidente bizarro e explica-lo de modo ainda mais bizarro?” Essa história funcionaria? Raramente escolho um tema. Eles vão surgindo, como relâmpagos. Claro, não tenho como escrever tudo o que me vem à cabeça (quem dera!). Mas vou anotando os conceitos que mais me empolgaram e, na medida do possível, faço uma fila de projetos a serem desenvolvidos.
  3. Qual a melhor coisa em escrever?
    Depende só de você. Você não precisa de verbas, equipamentos, não precisa passar por editais de pesquisa, nem por comitês de aprovação. Não há qualquer limite além daqueles que você mesmo se impuser. Claro, se vai ser publicado ou lido, é outra história. Mas, de qualquer modo, é uma atividade libertadora.
  4. Você tem um cantinho especial para escrever? 
    Nenhum. Qualquer lugar em que eu possa dispor de uma mesa e um laptop ou slidepad, está valendo. Se houver café, então, é o paraíso. Eu costumava escrever muito em cafés. Hoje em dia, com o advento dessas cafeteiras estilosas, escrevo em casa mesmo.
  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
    Escrevo ficção científica, gênero pelo qual me apaixonei na infância. Nunca gostei de explicações “mágicas”. Sempre fui da turma do foguete, nunca da galera do tapete voador. E também gosto de humor, principalmente do humor absurdo, razão pela qual adoro os livros de Douglas Adams e Robert Scheckley. Também gosto muito do bizarro fiction, um gênero ainda inédito no Brasil. Agrada-me a sua ausência de limites narrativos e imprevisibilidade de suas tramas. Já escrevi alguma fantasia com viés cômico, mas nada que se ajuste a um nicho específico. Uma vez, pensando em concorrer a um desses prêmios literários destinados à “alta literatura”, também tentei escrever um drama existencialista. Foi uma experiência atroz, de dar dor no fígado. Escrevi três páginas e nunca mais voltei a trabalhar naquilo.
  2. Fale-nos um pouco sobre seu (s) livro (s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?
    Os títulos variam. Como bom geek, adoro referências e citações, o que me leva a escolher títulos que, de algum modo, prestem homenagem a obras célebres. Mas também escolho títulos que me causem impacto ou, pelo menos, que levem o leitor a se perguntar “o que foi que aquele cara quis dizer com isso?” Quanto aos personagens, também depende. Os nomes obedecem a critérios como plausibilidade e sonoridade. Ou seja, o personagem precisa de um nome que se encaixe no universo no qual ele está inserido, mas também precisa ser um nome que soe agradável, ou, pelo menos, neutro, a menos que o objetivo seja uma sátira. No segundo caso, não tenho o menor pudor em usar trocadilhos infames e apelar para os nomes mais absurdos possíveis.
  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?
    Diversas. Dependendo da ambientação, além de sites, revistas e livros de referência, também apelo para entrevistas com gente que conhece o ambiente que quero descrever, ou que viveu na época em que transcorrem os acontecimentos da trama.
  2. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
    Há quem diga que eu me inspire muito em Douglas Adams, que, de fato, é um de meus autores favoritos. Mas também gosto de muita coisa de Luís Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes. O clima caótico dos esquetes do Monthy Python também é uma de minhas inspirações. Tento traduzir para a escrita um pouco da maluquice dos roteiros do grupo inglês.
  3. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
    Sim. Meu romance de estreia, Onde Kombi Alguma Jamais Esteve. Simplesmente não havia editoras dispostas a investir em um romance de ficção científica cômica. Mas, felizmente, uma editora portuguesa entrou em contato comigo, por causa de outro projeto, e se interessou por meu original.
  4. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
    Paradoxal. É a literatura de entretenimento que sustenta as grandes editoras. Todo mundo sabe disso. Entretanto, isso não impede que muitas dessas editoras exibam com orgulho livros que ninguém lê, mas pelos quais a nossa intelectualidade morre de amores. Além disso, essas mesmas editoras ainda procuram autores estrangeiros de entretenimento, quando há ótimos autores nacionais, bem diante delas. E não falo de autores estrangeiros best-sellers. Autores estreantes, principalmente anglófonos, parecem ter mais chance de publicação no Brasil que os próprios brasileiros.
  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
    Acho positivo. O publico gosta daquilo que o público gosta. O que importa é que ele tenha opções. É preciso que haja variedade. Nada é mais deprimente do que entrar numa livraria e ver uma estante inteira tomada por um ou, no máximo, dois títulos. Isso é limitante. Que venha a variedade. Os autores que conseguirem visibilidade serão lidos e comentados. Depois, é com o público. Ele decide.
  2. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?
    Acho que o livro e o mercado editorial/ livreiro mereciam mais considero ação por parte do executivo e do legislativo. Fala-se muito em apoiar a literatura brasileira, em fomentar a leitura. Mas vejo muito poucas iniciativas concretas nesse sentido. Se não puderem ajudar, que ao menos não atrapalhem o mercado.
  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?
    Diversos. Mas, no Brasil, eu poderia citar “A Escrava Isaura e o Vampiro”, de Jovane Nunes, que tem o início de uma história mais engraçado e original que já encontrei em língua portuguesa. Entre autores estrangeiros, Harry Harrison em Bill, O Herói Galáctico, criou o arco de personagem mais divertido que eu já li, subvertendo totalmente a jornada do herói. O final é bem o tipo de coisa que eu gostaria de ter escrito.
  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria?
    Isso é difícil. Cada nova história tem uma ambientação e um clima diferente. Mas adoro trilhas sonoras. Então, escolheria músicas de John Williams (Caçadores da Arca Perdida, Superman O Filme), Jerry Goldsmith (Poltergeist, Jornada Nas Estrelas O Filme, Planeta dos Macacos original), John Barry (Dança com Lobos, tema de 007), James Horner (Krull, Rocketeer), Abel Korzeniowski (Penny Dreadful) e também de caras do segundo time, como Craig Safan ( Remo, Desarmado e Perigoso e O Último Guerreiro Das Estrelas).
  2. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?
    Acho que tive essa sensação com A Cidade e As Estrelas, de Arthur C. Clarke. A cena final é extraordinária. Deixou-me com um arrepio na nuca. Eu a homenageio em meu livro, Onde Kombi Alguma Jamais Esteve.
  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
    Estou trabalhando numa comédia de aventura que satiriza tramas populares das histórias em quadrinhos, levando um clima de humor nonsense para cenários que são tradicionalmente épicos. Também gostaria de escrever um romance bizarro que brinca com a estética dos filmes-catástrofe, como o uso de diversos personagens espalhados ao redor do mundo, mas sendo afetados por uma crise ecológica surreal. Nesse cenário, diferentes tipos de pessoas precisarão reagir a mudanças em uma escala global, algumas prosperando, outras padecendo e outras, ainda, encontrando maneiras absurdas e inesperadas de lidar com a crise. Também tenho uma aventura de história alternativa, com alguns capítulos prontos, que se passada durante a Guerra dos Farrapos, num universo no qual a última era glacial terminou bem mais tarde do que em nossa realidade.
  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
    Eu as leio para me atualizar sobre as tendências do mercado. Acho que são ferramentas interessantes e bastante úteis nesse mundo conectado em que vivemos.
  2. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
    Jovane Nunes, autor de A Escrava Isaura e O Vampiro, o livro nacional mais engraçado que já li.
  1. Qual a maior alegria para um escritor?
    Para mim é ser lido e apreciado, saber que o produto de minha imaginação ajudou alguém a ter horas agradáveis em meio ao caos e as neuroses do mundo moderno.
  2. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
    “Não se deixe moldar por opiniões alheias. Deixe que os livros que você ama sejam seus guias. Quando você ler uma frase e pensar “queria ter escrito isso”, você saberá que está no caminho certo.”
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