Jovens depressivos… mundo depressivo

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Carla[1] é uma garota de 17 anos, próxima de mim, que tem picos de depressão, dependendo do dia ou de momentos de estresse. Conversando comigo ela relatou “Durante esses picos, ou crises, sei lá como definir isso, eu me isolo, fico trancada no meu quarto e quando não é possível isso, eu me isolo mentalmente, de algum jeito desligo meu cérebro quando estou perto de muita gente. Sinto-me vazia, uma angústia inexplicável, uma vontade de fazer nada. Meus pais não compreendem, ou eu não faço por onde compreende. Isso o que sinto, acham que é uma fase minha e que vai passar. Outras vezes dizem que é frescura minha e que só quero chamar atenção (nesse momento sua voz embargou) às vezes, só queria não sentir essas coisas. Não me sentir anormal por não conseguir interagir com outras meninas da minha idade, e por não conseguir ter o sorriso sincero que elas têm ao tirar fotos, ou conseguir ter um namorado. Geralmente, para não em sentir tão mal, me convenço de que todas  as pessoas, incluindo você, são infelizes e que conseguem sobreviver porque são frios o bastante para conseguirem pôr uma máscara no rosto e fingir que tudo está bem, mesmo quando o mundo de vocês estão desabando. (Alguns segundos de silêncio) Eu me sinto um nada, uma ninguém. Têm dias que quero morrer. Já pensei em várias maneiras de me matar.window-view-1081788_1920                                                  Foto fonte: Pixabay

 

Para entendê-la melhor conversei bastante e fiz perguntas para saber de onde isso iniciou e ela me disse que existe histórico de depressão em sua família e que esses picos de depressão dela começaram logo após de ter passado por um momento de extremo estresse e pressão que sofreu durante sua transição de escolar, sofrendo por causa do impacto cultural que teve ao iniciar os estudos em outra escola que era mais rígida que a anterior.

Além de tudo ela também lida com um histórico de rejeição familiar por parte de alguns de seus parentes.

Não sou psicólogo para poder afirmar que essas foram as causas, porém, com base em pesquisas, tudo o que ela falou engloba a depressão. E decidi fazer esse texto para expor como a depressão está aumentando tanto entre os jovens como no mundo.

Drauzio Varella ressalta que, “Antes da puberdade, o risco de apresentar depressão é o mesmo para meninos ou meninas. Mais tarde, ele se torna duas vezes maior no sexo feminino. A prevalência da enfermidade é alta: depressão está presente em 1% das crianças e em 5% dos adolescentes.”

E destaca os seguintes sintomas:

“Alteração de peso (perda ou ganho de peso não intencional);

Distúrbio de sono (insônia ou sonolência excessiva praticamente diárias);

Problemas psicomotores (agitação ou apatia psicomotora, quase todos os dias);

Fadiga ou perda de energia constante;

Culpa excessiva (sentimento permanente de culpa e inutilidade);

Dificuldade de concentração (habilidade diminuída para pensar ou concentrar-se);

Ideias suicidas (pensamentos recorrentes de suicídio ou morte);

Baixa autoestima.”

Num levantamento feito pela OMS o estudo comprovou que mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, o que representa um aumento de 18% desde 2005.

“A depressão afeta a todos nós. Não discrimina por idade, raça ou história pessoal. Isso pode prejudicar os relacionamentos, interferir na capacidade das pessoas de ganhar a vida e diminuir seu senso de autoestima”, disse a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa Etienne, em pronunciamento para o Dia Mundial.

A OMS ressalta que “a depressão é diferente das flutuações de humor usuais e das repostas emocionais de curta duração dadas aos desafios cotidianos”.

Segundo Drauzio Varella, “o tratamento da patologia envolve geralmente psicoterapia ou medicação antidepressiva — os dois métodos também podem ser combinados”.

A doença também é um fator de risco importante para o suicídio, responsável pela morte de centenas de milhares de vidas a cada ano.

Para Shekhar Saxena, diretor do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS, “uma melhor compreensão da depressão e como ela pode ser tratada, embora essencial, é apenas o começo”. “O que precisa ser seguido é a expansão sustentada dos serviços de saúde mental acessíveis por todos, até mesmo pelas populações mais remotas do mundo”.

Fontes:

https://nacoesunidas.org/depressao-afeta-mais-de-300-milhoes-de-pessoas-e-e-doenca-que-mais-incapacita-pacientes-diz-oms/

https://drauziovarella.com.br/letras/d/depressao/

https://drauziovarella.com.br/drauzio/depressao-na-adolescencia/

[1] O nome real foi substituído para preservar a identidade da jovem.

12 Comentários

  1. A depressão é um mal que está crescendo a cada dia e a falta de compreensão daqueles que estão próximos é algo horrível e que agrava ainda mais essa situação. Eu conheço uma jovem que vem passando por isso à um tempo, hoje ela está com 18 anos, já tentou suicídio algumas vezes e tudo isso veio a tona a partir de uma mudança de escola, assim como a menina que você descreveu. Ela saiu de uma escola e foi para outra mais rígida e isso fez com ela se sentisse péssima por não conseguir acompanhar, enfim, provavelmente esse não foi o motivo, pois ela também tem histórico familiar (a mãe também já precisou de tratamento por causa de depressão) mas cooperou bastante. Mas importante é que ela está se tratando, está melhor, aos poucos ela está vencendo.

    Parabéns pelo texto, é um tema que precisa ser debatido, pois quanto mais aberto for o diálogo, será melhor para as pessoas que passam por esse problema.

    • Nossa, é triste saber que isso é algo comum e em nossos jovens, as estatísticas são alarmantes. Obrigado pelo comentário.

  2. Muito importante esse tema que você abordou, sou pai de família e minha filha teve inicio de depressão e até nós, eu e minha esposa, aceitarmos esta situação foi difícil, você disse aí que a menina falou que os pais vêem como frescura, no começo assim, a gente pensa que é fase, mas é porque nós mesmos não queremos aceitar que seja isso acontecendo e negamos. Mas graças a deus a gente abriu os olhos logo e hoje ela está bem.
    Parabéns pelo texto! Grande abraço!

  3. Muita gente não compreende as pessoas que passam por esse tipo de disturbio, as julgam como pessoas “frescas”, apenas piorando a situação emocional delas. Amei seu texto!

    • Sim, é uma pena muitos não entenderem ou não procurarem entender. Obrigado pelo comentário 🙂

  4. Adorei, como sempre sendo brilhante, adoro seus textos, ainda mais quando tem essa pegada de psicologia. Beijos!

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