Resquícios de Nós Mesmos – Saulo Moreira

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“Palavras são a tradução do que sentimos

e emoções são capazes de mudar o mundo”.

(Saulo Moreira,

in: Resquícios de Nós Mesmos, 2016)

No livro “Resquícios de Nós Mesmos” o autor Saulo Moreira uni três dos meus gêneros literários preferidos: policial, suspense e terror. A trama brinca com alguns conceitos das lendas urbanas, girando em torno de um assassinato em uma casa abandonada em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais.

Pelo fato de morar no interior de São Paulo, a escrita de Saulo logo me chamou atenção pela acuidade em descrever as particularidades sobre como é viver na atualidade em uma cidade pequena. A tecnologia e internet estão presentes e conectando ao mundo, contudo, ainda persiste aquela característica interiorana dos adolescentes perambularem sem supervisão e crescerem no mesmo ambiente, inclusive em idade adulta. Por esse motivo, quando ocorre um incidente na casa com fama de assombrada na Rua Argentina, 299, o caso cai sob a responsabilidade do detetive Sandro, já que uma das envolvidas é Aline, irmã do detetive Alisson, seu colega de serviço e filha do seu superior José de Arimatéia.

O caso rapidamente se torna importante não apenas pela notoriedade da envolvida, mas porque as testemunhas acreditam que um fantasma foi o autor do assassinato. Entretanto, o detetive Sandro precisará lidar com seus próprios medos, fantasmas e demônios internos para desvendar o crime, pois na adolescência, muitos anos antes, nessa mesma casa assombrada, ele perdeu a memória num acidente inexplicável.

Apesar dos capítulos intercalarem as tramas entre os personagens ligados ao primeiro incidente ocorrido na casa – como Allison lidando com sua arrogância para manter a namorada ao tentar entender o que sua irmã vivenciou; Marcos, o dono de pet shop as voltas com suas fobias e a paternidade e Luís, o excêntrico hacker bem sucedido – sem sombra de dúvida, o detetive Sandro é o protagonista. O seu jeito nerd solitário, além de encantador, faz o leitor torcer para que supere suas angústias e refaça sua vida, mesmo com amnésia.

Em meio aos mistérios do caso, o autor aborda dois temas distintos, mas os faz se complementarem de maneira brilhante. Enquanto o detetive Sandro tenta equilibrar seu ceticismo com as evidências sobrenaturais, no melhor estilo Arquivo X (X-Files, 1993-2016), também reflete se o que nos torna o que somos são nossas experiências vividas e se, ao perder a memória, ainda seriamos a mesma pessoa.

A escrita de Saulo Moreira prende o leitor de “Resquícios de Nós Mesmos” e, em muitos momentos, me vi indagando quem possuía as motivações justas no enredo. Vale ressaltar que os personagens principais são masculinos, entretanto, as figuras femininas são cada uma ‘empoderada’ (por falta de uma palavra melhor) a sua própria maneira. Seja Ana Paula, a cientista de mente aberta, ou Laís a tia hippie crédula de uma das testemunhas ou até mesmo as dúvidas modernas da namorada de Alisson, que são semelhantes a grande maioria das jovens mulheres de qualquer lugar, todas possuem sua relevância no enredo.

“Resquícios de Nós Mesmos” agradará tanto a quem procura uma trama investigativa, quanto a aqueles leitores que, como eu, não dispensam um viés sobrenatural. Certamente já estou ansiosa para ler “O Grupo”, livro do mesmo autor publicado pela Editora Pendragon.

E você, acredita que aparições em casas amaldiçoadas não passam de travessuras de crianças desocupadas com mentes férteis?

 

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