1. Fale-nos um pouco de você. 

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Sou um homem de meia idade que escreve ininterruptamente desde a adolescência. Sem embargo, apenas nos últimos cinco anos passei a publicar textos em ambientes virtuais. Isso tem me motivado, mais recentemente, a participar de antologias como a presente.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Alhures, RicardoC — arquiteto e fotógrafo. Escrevo, todavia, desde novo. Sempre tive muito pudor em chamar-se poeta, mas escrevo sobretudo poesia. Se escrevo, bem ou mal, é mais por gosto que por oportunidade. Tenho procurado, apesar dos pesares, aprender todos os dias com os textos que publico na esperança d’um dia escrever alguma coisa de interesse geral. Enquanto esse dia não chega, vou enchendo páginas e páginas de versos que talvez signifiquem algo para alguns. Aprecio versos com métrica, ritmo e rima, mas não desdenho os que não os têm. Sem embargo, não me entendo como passadista ou qualquer ismo afim, ao contrário, considero-me adepto, em Literatura, tão-somente do MILENARISMO, cujo apocalipse da virada do dois mil frustrou. Um frustrado histórico, portanto.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Gosto da ideia medieval de que trovar tenha a ver com “trouver”, isto é, achar. Quando começo a escrever um poema eu sinceramente não sei o que quero dizer. Escrevo, portanto, para descobrir algo, seja sobre a sonoridade e significado das palavras; seja sobre aspectos ocultos de minha personalidade. O melhor de escrever, penso eu, é essa surpresa quotidiana da descoberta do idioma e de si mesmo.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? (Envie-nos uma foto)

Tenho um local de trabalho, uma escrivaninha. Acumulei alguns livros ao longo da vida e os instalei em estantes n’essa sala. Todavia, escrevo em qualquer lugar. Costumo andar com blocos de notas aonde quer que vá.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Tento escrever sobre tudo. Qualquer coisa que chama minha atenção me faz tentar um texto. Dentro do que se convencionou chamar de gêneros em literatura, escrevo sobretudo poesia de forma fixa, embora com temas e vocábulos contemporâneos. Escrevo ainda crônicas, contos e estreei nos romances este ano com PASSIONAL – Notas d’um bilhete suicida (ainda não publicado). Às vezes me arrisco a ensaiar reflexões sobre temas mais restritos que acabo aproveitando em artigos ou prefácios. Acho fundamental essa inquietação que move o escritor a estar sempre buscando se expressar em formatos ou possibilidades diferentes.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu (s) livro (s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Escrever é uma oportunidade rara de “se outrar”, isto é, pôr-se no lugar do outro e tentar ver o mundo sob sua perspectiva. Uma personagem que não descola da visão de mundo do autor é previsível. A inspiração para escrever acaba sendo esse jogo de não ser sempre eu mesmo; poder sentir como se eu fosse alguém diverso n’outra realidade. Isso me interessa mais do que me conhecer em profundidade e expor isso à curiosidade do leitor. Escrevo, sobretudo, para eu me ler. Meu prazer com escrita, d’estarte, tem de ser sempre duplo: Primeiro ao escrever e depois a ler com atenção. Enquanto não gostar do que escrevi, como leitor quase estranho às motivações do texto, não me dou por satisfeito.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Hoje em dia, com a imensa veiculação de informações, é possível evitar o anacrônico e o infactual com certa facilidade. Sou um exaustivo revisor de meus textos e tenho como dever pessoal evitar o lugar-comum, aprofundando as ideias apresentadas até se revelarem relevantes. Não tenho o menor interesse em reverberar doutrinas ou humanizar sistemas literariamente. N’esse sentido, sempre me interesso por personagens que não se pareçam muito comigo e que estejam vivendo coisas que não posso viver. É como se vivesse por meio d’elas opções que não realizei em minha vida. No romance que escrevi, por exemplo, o protagonismo é de uma mulher religiosa que se apaixona por outra mulher. Eu, que sou homem e agnóstico, não tenho nada a ver com ela. Eu a criei imaginando como eu seria se fosse ela.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Acredito ser impossível ser escritor sem ler escritores excepcionais. A gente pode até fugir d’eles para não os imitar demais, mas deve visitá-los com certa frequência para entender como a literatura pode ser mais diversa, interessante e mesmo divertida. Li e leio muito Pessoa, Drummond, A. Prado, F. Espanca, Quental, Bocage… Tenho profunda admiração por F. Sabino, M. Scliar e C. Abreu. Gosto sobretudo de textos fluidos onde a gente percebe uma simplicidade trabalhada, onde personagens, diálogos, cenários e acções realmente se mostram necessários para contar a história. Nada deve sobrar no texto.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Estou tendo dificuldade exactamente com o romance. O processo de revisão é extremamente difícil porque o escritor é muito apegado àquilo que propõe. Quando a gente lê com mais isenção, contudo, percebe que falta clareza e certas passagens… Embora tenha enviado os originais para editora, não estou satisfeito ainda.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

O mercado editorial vive uma crise de interesse geral que me incomoda muito. Não penso que escritores devam ser celebridades nos moldes de actores e cantores, mas reconheço que somente esse tipo de artista tem visibilidade hoje em dia. Falta interesse do público. As editoras fazem seus lançamentos; expõem nas feiras; criam conteúdo para cadernos culturais… Mas, no final das contas, livros não se tornam mais assunto para as pessoas. Lê-se muito pouco e mal no Brasil. Sem leitores, por mais livros que os escritores ofereçam, as editoras e livrarias fecham. É um quadro desanimador. Muitos como eu têm publicado em blogues, redes sociais e sítios especializados. Pode ser uma alternativa ao livro físico essa oferta de conteúdo cada vez mais barata ao leitor. Contudo, isso prejudica os profissionais do setor, em geral, bem com o compromisso dos escritores com seus textos, em particular.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Reflete a grande oferta de conteúdo que se observa nos ambientes virtuais, a meu ver. Evito julgar a produção literária dos outros, mas reconheço que há muito material sendo publicado sem o devido cuidado editorial. O escritor é um ser vaidoso e apegado a suas convicções. Sem olhar experimentado do outro, isto é, do editor, o produto literário corre o risco de ser publicado sem questionamento. Literatura se diferencia da mera escrita por causa d’este processo escrever-revisar-editar-reescrever. Sem isso, textos crus vêm a lume mais para testar a paciência do leitor do que não lhe fazer pensar ou entreter. É um problema essa “facilidade” imediatista que oferece milhares de textos sem qualidade para um público que não está muito atento.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Preocupa-me muito viver n’um país no qual as pessoas passam anos sem comprar livros e, sobretudo, lê-los. Parte da culpa é do valor dos livros que deriva, sobretudo, das dificuldades de distribuição e divulgação. Os livros digitais, por outro lado, permitem aos realmente aficionados por Literatura o acesso a milhares de textos excepcionais sem qualquer custo… É difícil competir com a obra completa de A. dos Anjos ou A. Quental a um clique de distância… Sempre haverá um poeta morto com a obra disponível em Domínio Popular para encher uma tarde de folga. Todo Machado e todo Barreto acessível, enquanto os escritores contemporâneos se diluem n’uma imensa nuvem de dados global. Eu confesso que tenho dificuldade de acompanhar escritores novos fora da internet. E pior: Só os encontro por puro acaso!

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Muitos. Mensagem, de Pessoa, tem uma estrutura calcada no brasão de armas de Portugal… Isso é muito interessante em si. Dom Casmurro, de Machado, é a narrativa d’um ressentido do qual o leitor acaba por desconfiar: Genial!… A lista é infindável. Todo livro realmente importante têm um conceito original e desnorteante por detrás. Em geral, quem escreve muito bem está incomodado com algo que de tão pessoal se torna universal. Embora seja raro, é maravilhoso quando acontece.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da música + cantor)

Nenhuma. Para mim, Poesia e Música são irmãs siamesas separadas a escalpelo: para o desenvolvimento de ambas, foi necessário separá-las do que foi um dia uma espécie de corpo comum. Portanto, poesia não precisa ser letra de música popular e, por outro lado, música erudita não precisa de letra. A música mais sofisticada tende a ser instrumental para não distrair o ouvinte com as palavras e seus significados. Por outro lado, sendo o idioma um sistema de linguagem seguido por pessoas que se distribuem de maneira concentrada em regiões pelo planeta, o uso de palavras n’uma obra de arte exige o reconhecimento da especificidade da cultura d’um lugar. A música, não.

Reconheço haver compositores populares capazes de letras de grande qualidade poética, mas não associo o que escrevo a qualquer música, seja popular ou erudita.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Mensagem, de F. Pessoa. É um livro moderno dentro da tradição poética em língua portuguesa que me revelou uma possibilidade de fazer a poesia relevante em pleno século XX. Esse sempre foi o grande problema da poesia para mim, isto é, escrever poesia sem cair no rótulo de passadista. A solução do Modernismo Brasileiro de ruptura com as formas fixas nunca me pareceu convincente. Afinal, ser poeta moderno é escrever sem rimas? Isso não vai muito além de modismo… Ler um poeta do século XX que estruturou sua ideia de apresentação dos poemas n’um sistema gráfico sem evitar a métrica, o ritmo e a rima ampliou o debate do que é de facto essencial em poesia.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Esse citado romance em revisão já é uma coisa que tenho de publicar para pôr fim ao ciclo criativo que o originou e ficar livre para outras coisa. Tenho um grande projeto de publicação dos SONETOS que escrevi desde a adolescência que também busca pôr fim a um ciclo. Outro projeto é uma reunião de poemas narrativo sobre o folclore ibero-americano que escrevi em redondilhas. Há também o projeto d’um livro de trovas ao gosto popular chamado NOVENTA E NOVE TROVAS e outro em oitava rima intitulados OITO OITAVAS.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Acho alguns bem fracos. Repetem em voz alta sinopses e esquemas de leitura. Não revelam nada de novo com suas leituras n’essa obsessão de apresentar conteúdo a qualquer preço. Prefiro assistir escritores falando de seus livros do que críticos que não escrevem sequer crítica literária palpitando sobre autores consagrados. É relativamente fácil falar do que outros já analisaram ou repetir macetes de teoria literária para concursistas ou afins. Como tem uma frequência de publicação de vídeos para ser rentável no sistema do provedor, fala-se demais sem ter muito a dizer.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Essa é realmente difícil… Não sei. Ficaria muito honrado com a leitura de Adélia Prado, sobretudo por escrevermos muito diferente sobre universos próximos no tempo e no espaço: Minas, Filosofia, família, afectividade, Deus…

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Ser lido e entendido.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

AO POETA AINDA MOÇO

Não. O mundo não t’entende. Como poderia?
Tu te ocupas com letras, não com números…
N’um tempo em que tudo tem preço (sobretudo o próprio tempo…), buscas o imensurável; o inestimável; o infinito!
Não lamentes a incompreensão que deixas como se pegadas em teu caminho: O que te importa pouco importa.
Quantos não seguram um sorriso escarninho quando te apresentas como poeta?
Quantos não olham com pena como em face d’um louco manso que, abobado, cultiva ervas à beira da estrada?

Digno de riso ou de dó, o que preferes?…

Em tua defesa, argumentas que escrever talvez não seja uma opção. Concedo, pois, a mim tampouco.
Mas não esperes por um olhar sequer de louvor. Aliás, és de todo indigno de aplausos. O maiores e os melhores estão mortos e é bom que estejam mesmo para não causar senão canseiras a estudantes.
Nada mais inoportuno do que um poeta… Para quê subjetividades obtusas ou metáforas pomposas?
Já é pedir demais ao leitor que raciocine! Que se dirá se lhe exigires sensibilidade e atenção?

— “Tome tento, Sr. Poeta!”?—?dirão eles-outros.

Ao lamentar por ti, lamento por mim. Não vejo
em minhas veleidades literárias senão autoengano.
O orgulho de meus versos deveria ser vergonha, pois,
a liberdade de escrevê-los me custa a vida. E ela
é demasiado valiosa para se perder entre folhas salpicadas de tinta china. Ou pior, face a telas azuis…

Salva tua vida, poeta ainda jovem, enquanto há tempo!

Logo, amarás figuras de linguagem enquanto desenterras vocábulos seiscentistas…

Arqueólogo do futuro,
procura a sete palmos inteligências artificiais;
funda sofisticadíssimas linhagens de máquinas guerreiras;
escreve apenas crônicas dos reinos pós-humanos;
publica, sim, ficções pseudocientíficas para androides;
edita, com apurada programação, entretenimento para sistemas computacionais!

Afinal, até as máquinas s’entediam… Por que não?

Sem embargo, talvez um robô-operário, d’aqui a mil anos,
possa ler os versos de tua língua já morta
e conclamar à última revolução!

Ou senão (muito melhor!) ao Nada.

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