Um clássico que retoma às memórias.

Não me recordo exatamente quem e nem onde ouvi a frase: “esse é um filme simples e complicado, como a própria vida”, referindo-se ao filme Roma, do Alfonso Cuarón.  Cheguei a pensar que se tratava mais um épico sobre a história do grande império que veio à decadência durante o século V, mas o que podemos ver é uma história bonita e singela, e ao mesmo tempo com doses de dor, tristeza e complexidade, que se passa em sua maior parte num bairro de classe média na Cidade do México chamado Colônia Roma.

O drama, dirigido pelo premiado diretor mexicano tem 2h e 15 min e se passa no ano de 1970. Tem recebido elogios pela crítica ao redor de todo o planeta, e das premiações aos quais foi indicado, tem sido vencedor em todos eles. Cuarón tem saído com no mínimo duas estatuetas (os prêmios de diretor e de melhor filme em língua não inglesa), mas tem potencial para ir mais longe. O BAFTA, principal premiação do cinema britânico e um dos mais importantes do mundo, deu à Roma, além das duas categorias já citadas, os prêmios de melhor filme e de melhor fotografia. O filme pode surpreender na cerimônia do Oscar, onde concorre em dez categorias.

A história do longa faz menção às memórias afetivas da infância do diretor. Foi em Colônia Roma que Cuarón viveu com seus irmãos, um pai ausente e a mãe que era a chefe da família. O México da época encarava uma série de lutas populares por todo o país, mas algumas pessoas se portavam alheias à tudo isso. É o que acontece com Cléo, a garota ingênua e humilde de origem indígena que trabalha como empregada. Ela apenas se preocupa em cumprir as suas tarefas: buscar as crianças na escola, coloca-las para dormir, lavar o pátio, cuidar das roupas, segurar o cachorro enquanto o patrão entra pela garagem.

E toda essa simplicidade de Cléo é cativante. Ela age de uma forma que faz desejar coisas boas para ela. A atriz Yalitza Aparicioiz está estupenda no papel, e foi indicada ao Oscar de melhor protagonista.

A vida de Cléo, contudo irá ganhar contornos dramáticos. Ela namora um rapaz chamado Fermin, e fica grávida. A reação dele ao saber da notícia é a mais sacana possível (que dó eu senti dela nessa cena) e ela fica desesperada sem saber o que fazer. Outro fato irá contribuir para as aflições da moça. Seu patrão sai de casa, e o clima na residência não fica bem. Sofia, a esposa abandonada interpreta por Marina de Tavira, passa por momentos de crise e as crianças sentem isso. Cléo ao mesmo tempo em que fica próxima à elas, vive o receio de ser demitida ao contar sobre sua gravidez e o abandono sofrido.

Ao relatar para a patroa sua situação, a moça indígena recebe um apoio inesperado, e a vida das mulheres entra num clima de cumplicidade. Duas pessoas, de origem e classe diferentes compartilham a dor do abandono e juntas irão caminhar tentando enfrentar tudo de cabeça erguida. Sofia dá suporte à sua empregada que começa a entender que a vida algumas vezes é muito dura.

Além de dirigir, Cuarón escreveu, produziu e fotografou Roma. O filme em preto e branco dá um tom bem nostálgico e íntimo. A câmera parece permanecer num ponto fixo e movimenta-se lentamente nos dando sensação de que os ambientes onde ocorrem as cenas vão aos poucos sendo ampliados. Além do drama que envolve as duas mulheres, principalmente a Cléo, o longa retrata situações em que vivia a sociedade mexicana na época. Em determinada cena, uma criança comenta que a polícia havia matado um rapaz que jogava balões de água nos carros que passavam.

É o tipo de filme para ver em momentos mais tranquilos, e com a mente mais descansada porque de outra forma é improvável que se consiga absorver a mensagem ou as mensagens que o longo nos quer trazer. Mexe com a sensibilidade e com o lado humano das pessoas. É bem possível que para alguns e algumas faça rememorar algumas experiências da época de infância.

Indispensável para quem é fã de filmes com pegada mais clássica.

Certamente, Roma será lembrado e comentado durante muito tempo.

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