Simone Saueressig

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Minha caminhada como escritora começou quando eu tinha uns dezoito, dezenove anos. Foi mais ou menos com essa idade que eu procurei a minha primeira editora, com o original de “A Noite da Grande Magia Branca”. Para a época, eu era muito jovem, porque não era como é hoje. Não havia internet, o que significa que não havia como publicar on-line. A autopublicação era um ato meio doido, porque era caro e sofria ainda mais preconceito do que hoje. Não havia publicação sob demanda. Então eu nem cogitava publicar de outra maneira. Tive muita sorte com meu original, porque a segunda editora que eu procurei aprovou o livro. Era a Editora Kuarup, de Porto Alegre. Foi assim que eu comecei. Hoje tenho mais de trinta títulos publicados tanto através de editoras como por conta própria, já participei de inúmeras coletâneas e tenho alguns prêmios literários, como o primeiro lugar nos concursos de contos “Leia Comigo” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e o no concurso “Museus: Mundos Imaginários” do Museu Imperial de Petrópolis, ambos em 2003, o prêmio “Livro do Ano – Narrativa Longa”, da Associação Gaúcha de Escritores, em 2011, e o Troféu Odisseia 2018”.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Minha outra atividade profissional é dar aulas de Ballet Clássico. Faço isso desde a minha adolescência. Também já trabalhei como secretária, mas era péssima nisso, e como jornalista.

Minha inspiração para a escrita, na verdade, não foi uma “inspiração”. Quando criança, eu tinha o hábito de inventar histórias oralmente, contando-as para minhas amigas. Com o passar do tempo, senti necessidade de anotar essas narrativas, para poder repeti-las, quando as meninas me pediam para ouvir de novo essa ou aquela história. Foi mais ou menos assim que comecei.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Ter a chance de ser diferentes pessoas, e tentar ver o mundo de maneira diferente. Por exemplo, em “De ferro e de sal”, meu romance de Fantasia publicado através do Amazon em 2018, tenho vários personagens complexos, com histórias de vida muito diferentes da minha, com atitudes bastante contrárias àquelas que eu habitualmente tenho. É sempre uma forma de exercitar uma outra maneira de ver o mundo, e acho isso essencial para entender o Outro.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever?

Geralmente eu escrevo no meu quarto. Mas é meio variado, depende do equipamento que tenho à mão.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Meu gênero principal é a Fantasia, sobretudo com o viés do folclore brasileiro. Mas também escrevo Ficção-Científica e, de vez em quando, Terror. Ah, também tenho alguns romances românticos, mas com pseudônimo, para não confundir os leitores, já que a faixa etária principal para a qual escrevo é a infantil e infanto juvenil. Porém, estou tentando convencer meus leitores de que minha também escrevo para adultos. “De ferro e de sal” não é, de maneira alguma, um livro para crianças.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu (s) livro (s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Cada livro tem uma história diferente para a criação dos personagens, então fica complicado para falar individualmente. Normalmente eu faço uma pesquisa. Por exemplo, se é uma história com personagens indígenas, forçosamente vai rolar uma pesquisa de nomes da etnia enfocada. No caso de “De ferro e de sal”, até que foi fácil. Eu queria uma história sobre um cenário medieval, de Fantasia Épica clássica. Alguns personagens e criaturas, busquei nas histórias gregas. Outras, vieram da minha cabeça mesmo, como Nils Pohle, o Arqueiro Negro. O mais divertido, nesse livro, foi a criação do universo, mesmo, tentar construir expressões que soassem familiares, mas que fossem de outra cultura, como “a presa nunca perde por esperar”, um ditado citados por um dos personagens. Vem, é claro, de “um dia é da caça e o outro do caçador”, mas repensado. Isso foi realmente divertido.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Neste caso, em particular, foi bem pouca. O que tive de fazer foi um mapa, que saiu muito tosco e não serviu para muita coisa. Depois tive de fazer outro (quase tão ruim quanto o primeiro), e foi bem difícil encaixar tudo o que eu tinha descrito no livro. Fiz uma pesquisa muito básica sobre a atividade de ferreiros, também, mas de uma maneira geral, não foi muito profundo. Já outros, como o a saga “Os Sóis da América”, tive de buscar muito mais informação e passei meses nisso, para cada um dos quatro volumes iniciais da saga. Hoje, eles estão organizados em dois volumes (formato físico) ou um único e-book. Tenho um outro romance, ainda, “aurum Domini – O ouro das Missões”, que me exigiu muita pesquisa e levou vinte anos para ser publicado. Mas valeu a pena, porque ele tem um cenário histórico e é bacana ver um trabalho feito com carinho, depois de pronto.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Às vezes sim. Tolkien sempre foi a grande influência inicial. Mas eu procuro vozes literárias em Stephen King, Edgar Allan Poe, Isaac Asimov, Érico Veríssimo. São autores que eu “visito” com frequência. Gosto de ter essa literatura por perto quando escrevo.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Sim, muitos deles. Agora mesmo estou na luta para tentar viabilizar a publicação de “O último continente”, mas aparentemente, terei de fazê-lo de maneira independente. Eu, particularmente, não gosto. Ter uma editora por trás de um livro é algo reconfortante, porque garante uma equipe que vai trabalhar com você para dar à história o melhor formato possível. Também garantirá distribuição do mesmo, o que é um grande desafio para mim. Nunca consegui realizar uma boa distribuição do meu material independente.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Acho confuso, sobretudo nesse momento de pandemia. Sinto muita falta da crítica literária. Mesmo quando ela é negativa, isso coloca o livro na roda, levanta o interesse dos leitores, acende a discussão em torno do título. Um produto cultural em torno do qual não circulam ideias, é um produto cultural fracassado. Por outro lado, acredito que seguimos vivendo um momento pujante de criação, embora com menos energia do que há uns três anos atrás. O problema maior é que na internet tudo fica muito diluído, porque há muita coisa. E sem a discussão em torno dos títulos, não há um destaque real. O que se destaca é a literatura estrangeira, mas é porque esses títulos já chegam marcados com índices de vendas muito positivos, ou algum prêmio  internacional. Já chegam com uma visibilidade maior.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Acho extremamente positivo. Mesmo quando nos chegam aqueles textos que a gente não gosta, é preciso pensar que a criação cultural é algo plural. É preciso que muitos textos circulem para quem possamos destacar os que consideramos bons. Mesmo nós, escritores, não aprovamos tudo aquilo que produzimos. É preciso produzir muito para ter algo de qualidade que, não por nada, é considerado a “nata”. Se você pegar um tarro de leite, a “nata” é um aparcela muito pequena. A maior parte é leite, mesmo.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

O problema dos preços está diretamente vinculado ao da produção. Se você produz uma tiragem baixa, o preço de cada exemplar sobe de maneira significativa, e nossas tiragens são ridículas. Quando comecei, lembro que a primeira tiragem de “A Noite da Grande Magia Branca” foi excepcional: 5.000 exemplares. Os demais tiveram uma tiragem inicial de 2.000 exemplares. Isso é  muito pouco. No caso do Rio Grande do Sul, somos 467 municípios. Cada um deles têm, pelo menos, uma escola. É sério, mesmo, que não é possível colocar 10 livros em cada município e garantir uma tiragem de 5.000? Não tem como você baixar o preço do livro se tiver de pagar um valor de gráfica muito alto (ao qual precisa somar as despesas comuns, como telefone, água, e luz da editora).  Além do mais, o livro precisa pagar uma cadeia de profissionais que trabalham nele. E, por fim, temos o problema (e esse sim é um “Problema”, com “P” maiúsculo) da distribuição que é falha, confusa e muito cara, na qual se perde muito, tanto volumes, quando valores. Para quem mora nos grandes centros, tudo é mais fácil. Mas eu já visitei cidades onde não há livraria alguma. O grande comércio de livros se dá durante o período da Feira de Livros que, normalmente, não passa de uma semana. Dá para pedir o livro pelo correio? É claro que sim. Mas estamos, ainda, muito longe do ideal para que o comércio virtual tenha a mesma importância do que o comércio físico. Muita coisa precisa mudar, precisa evoluir para isso. Na verdade, o que me preocupa não é o alto preço do livro nacional, mas as promoções que são feitas. Volta e meia eu faço alguma promoção que coloca meus e-books de maneira gratuita no Amazon. Mas eu não acho justo. Sobretudo para o autor, é de uma injustiça tremenda. Se o mercado do livro brasileiro fosse sério, com uma boa distribuição, boa circulação, tenho certeza de que o livro teria um preço muito mais em conta. Mas para isso, o leitor também precisa fazer a sua parte que é consumir literatura brasileira.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Nossa, um só…? Seria uma lista bem grande…

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da música + cantor)

Na verdade, cada livro meu tem uma trilha sonora muito própria. “De ferro e de sal” é constituída, basicamente, de músicas extraídas da trilha sonora de “Man of Steel”, de Hans Zimmer.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Sim, “O Senhor dos Anéis”. Mas tenho vários outros que ficam quase no mesmo patamar que ele.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Bem, projetos a gente sempre têm. O principal, no momento, é agilizar a produção de “O último continente”. Mas com o atual momento da pandemia do Covid-19, este projeto está estacionado, esperando as coisas se acalmarem para ir para o Catarse.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Acompanho pouco, na verdade. Acho que é a forma de divulgar e fazer alguma crítica literária. Mas, como eu já falei, acho que ainda falta alguma coisa para manter acesa a chama em torno dos títulos. Eu não sei o que é, infelizmente. Creio que nesse momento é a melhor forma de lidar com essa avalanche de informação chamada “internet”.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Nossa, não sei. Stephen King, eu acho. Neil Gaiman. J.K. Rowling, mais do que nada, porque acho que ela, em particular, ia gostar de algumas histórias que escrevo.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Ser lido. Sem dúvida alguma.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Acho que é sempre bom começar pelo de praxe: “leiam muito”. E, coladinho a esse, é: não tenham receio de serem influenciados por algum escritor. Somos influenciados o tempo todo por muitas coisas e por mais que você goste do texto de alguém, e por mais que o seu texto se pareça ao desse escritor (ou que você ache que se pareça), nunca será igual, porque um livro é produto de uma vida: a sua vida. Ninguém poderá vivê-la por você. Ninguém viverá uma vida parecida com a sua, e mesmo se forem parecidas, seus pensamentos pertencem somente a você. Então, não tenha medo de ser influenciado. Você será, por mais que tente fugir disso. E, por fim, escreva, escreva muito. Se puder, faça isso todos os dias. Escrever é como dançar, é como correr, é como cozinhar: se você quiser fazer isso bem, precisa ter prática. Então, mãos à obra!

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